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Levantamento Histórico

Catedral de Jacarezinho

Discorrer sobre o início da construção da catedral diocesana de Jacarezinho talvez a muitos não seja interessante, pois num primeiro momento se o leitor não a conhecer, seu inconsciente não o alerte. Nesse sentido cabe lembrar que o contexto da época de sua construção nos remete ao mundo conturbado, cenário do inicio do século XX, e que trouxe aos homens experiências inovadoras e marcantes, algumas das quais gostaríamos de nunca ter passado, como por exemplo, as grandes guerras mundiais.
Situar primeiramente o contexto de um dado histórico é hoje imposição para que haja real compreensão desse dado. Nesse aspecto, a pedra fundamental da atual catedral foi colocada no dia 19/07/1942 pelo segundo bispo de Jacarezinho, dom Ernesto de Paula, que por aqui permaneceu nos anos de 1942 a 1945.
O mundo nesse período, final da década de 1930 e início de 1940, vivia um período de mudança global, em todos os segmentos da sociedade. No Brasil já tínhamos vivido a Semana de Arte Moderna (1922), Vargas no poder e as idéias comunistas já haviam germinado.
No Paraná, no norte pioneiro, devido à terra roxa, solo permeável e profundo, fértil, tinha no plantio da cultura do café a elite cafeeira. Os coronéis representavam o poder político e econômico da cidade e da região.
O café atraiu migrantes de outras regiões, principalmente mineiros e paulistas. Foi, assim, a partir dessa cultura que se promoveu o povoamento do norte novo do Estado. Nesse período, Jacarezinho representava forte influência política, econômica e religiosa e nesse contexto recebe, em fevereiro de 1942, o seu segundo bispo, nomeado pela Santa Sé, Dom Ernesto de Paula, que, em presença de compacta multidão e autoridades, encontra a cidade em plena expansão populacional, devido às suas terras férteis.
Sobre a catedral relata que era um barracão, no estilo de uma fábrica, sem revestimento nas paredes e situada à beira de um quase precipício, no ponto extremo da cidade e por fim acaba anos mais tarde, vendida e transformada em moinho de trigo, que se localizava na Avenida Getúlio Vargas em frente à Santa Casa de Misericórdia.
Nessas circunstâncias precárias começaram os trabalhos de dom Ernesto, que para obter o cabedal necessário organizou uma grande festa, que se estendeu de 18 de agosto a 24 de setembro de 1944.
Não viu a sua catedral terminada e inaugurada, pois, em 1945, após três anos de governo, foi transferido para Piracicaba.
Por essa breve exposição podemos concluir que a diocese não possuía numerários suficientes para arcar com todas as despesas que se faziam necessárias, mas foi iniciado os trabalhos da Igreja Episcopal que exigiu somas enormes sendo o grande projeto em estilo moderadamente modernos, elaborada pelo arquiteto paulista Benedito Calixto de Jesus Neto.
A construção da catedral reflete sua grandiosidade (67 m de comprimento e 22 m de largura), sinais materiais da sociedade local, que possuía forte cafeicultura e predominava a religião católica, o que leva a acreditar que essa cafeicultura contribuiu grandemente para a execução da obra.
Nessa época a influência do catolicismo se fazia presente também na educação. Os filhos das famílias abastadas da região estudavam nos colégios internos: Colégio Cristo Rei (masculino) e Imaculada Conceição (feminino).
Com a saída de dom Ernesto, a diocese ficou aos cuidados de Monsenhor João Belchior, vigário capitular que assumiu até a vinda do próximo bispo, dom Geraldo de Proença Sigaud.
Pe Hugo Elsasser SAC1 diz no livro Tombo (7/V/61) que D. Geraldo encontrou a catedral nos alicerces e alguns dos quais, mal colocados. Essa colocação é contestada por PROBST, ao relatar que: “Isso foi engano; a catedral já estava coberta, mas sem acabamento interior e exterior, o que permitiu a mudança de estilo”. Essa contradição entre os documentos carece de maiores estudos, mas são os dados encontrados pelo Núcleo de Pesquisas de História das Religiões da disciplina de História da UENP – campus FAFIJA.
Amante do estilo colonial Dom Geraldo alterou o estilo da catedral quando ainda era possível, e confiou a orientação do acabamento ao arquiteto e pintor Dr. Eugênio Sigaud, seu irmão.
Podemos considerar que dom Geraldo ao alterar o estilo arquitetônico da catedral de brandamente moderno para um estilo basilical românico com características medievais, seu formato em cruz e apresentando caracteres góticos mostra desde sua chegada em Jacarezinho que sua personalidade e formação segue o estilo romanizado, considerado ultra conservador, herança de seus estudos em Roma.
Provavelmente esses estilos arquitetônicos pelo qual passou a construção da catedral de Jacarezinho devem-se aos períodos históricos da época.
Dom Ernesto demonstra influência “dos ares modernos” que surgiu nos anos de 1922, Semana de Arte Moderna, portanto moderadamente moderno e dom Geraldo a luta contra os ares do comunismo e a convicção da Igreja, que o melhor para o mundo seria a restauração do período do medievo a religião é uma coisa eminentemente social. As representações religiosas são representações coletivas que exprime a realidade coletiva.

Eugênio, o Artista Irmão do Bispo

Na catedral da diocese de Jacarezinho encontramos além da beleza e riqueza arquitetônica, também em seu interior os painéis pintados por Eugênio de Proença Sigaud, irmão de dom Geraldo de Proença Sigaud, assumidamente ateu e militante socialista.
Eugênio de Proença Sigaud nasceu em Santo Antônio do Carangola, Estado do Rio de Janeiro a 02 de julho de 1899, filho de Paulo da Nóbrega Sigaud e Maria de Proença Sigaud.
Sua família endividada junto a instituições bancárias transfere-se para Belo Horizonte em 1904 e aos 12 anos freqüenta como interno o Colégio Salesiano em Niterói, mas não se adaptando, foge para Minas.
Em 1920 forma-se engenheiro agrônomo pela Escola de Agronomia de Belo Horizonte. Em 1921, vai para o Rio de Janeiro e freqüenta a Escola de Belas Artes, tornando-se discípulo no curso de Desenho de Modesto Brocos, e nesse ano participa do Movimento Modernista, predecessor da Semana de Arte Moderna.
Sua vida artística inicia-se em 1923, quando faz parte de um salão: A Exposição da Sociedade Brasileira de Belas Artes. No ano seguinte, da XXXI Exposição Geral de Belas Artes expondo O Echo das Montanhas da América, painel decorativo e é em 1925 que Sigaud apresenta o quadro Lúcifer colhendo críticas diversas.
Em 1927, retorna à Escola Nacional de Belas Artes com a pretensão de tornar-se arquiteto, sobrevive vendendo seus quadros ou fazendo decorações.
Termina em 1932 o curso de arquitetura, momento em que já conseguiu penetrar nos meios profissionais e com modesto escritório projeta croquis de fachadas e plantas baixas, projetos completos de prédios e casas residenciais, de campo e de clubes.
Encontramo-lo em 1931 como um dos fundadores do Núcleo Bernadelli que significou renovação na arte carioca, democratizando e renovando no ensino de arte.
Antes de 1935, talvez devido as penúrias por que passou, o encontramos como simpatizante das campanhas do partido Comunista e em 1937 quando apresenta seu quadro “Êxodo de escravos” participando da Exposição do Riverside Museum de Nova York confirma sua convicção política para os oprimidos, recebendo menção honrosa e aplauso da crítica.
Participa em 1945, da exposição Artistas Plásticos ao Partido Comunista do Brasil ao lado de grandes artistas, dentre eles, Portinari, e Sigaud.

Sigaud e a Catedral de Jacarezinho

Se Sigaud era um militante social, dizia-se “ateu convicto” como se explica ter ele pintado uma igreja, uma catedral? Não era contraditório? Explica-se somente por ser convite de seu irmão, um bispo?
No livro de Gonçalves, encontramos o que Eugênio Sigaud esclareceu sobre seus trabalhos na catedral a execução do empreendimento não iria denotar devoção religiosa e sim um trabalho feito por encomenda religiosa.
Seu desejo era o de fazer suas obras perdurarem no tempo, desde jovem, o artista já dizia que, assim como Miguel Ângelo ele desejaria muito pintar uma catedral e respeitava o pensamento alheio sem se deixar influenciar, buscando, sempre que lhe era permitido, uma união maior com quem pensava como ele.
O convite, em 1950, de seu irmão dom Geraldo para projetar e supervisionar as obras da catedral de Jacarezinho veio de encontro a seus desejos, pois unia seu trabalho de arquiteto e de artista, à decoração e as pinturas internas do templo.
Assim remodela o projeto arquitetônico de Benedito Calixto Neto para o estilo romano e executa toda a pintura interna, que foi para a sociedade local da época definida como “Surrealista e Hereje, segundo alguns jornais da época”.
Para a realização desses trabalhos Sigaud transfere-se com sua família para Jacarezinho e realiza de 1954 a 1958, todo o trabalho arquitetônico e ornamental da catedral, bem como outros de caráter particular e também outros pequenos templos dos arredores.
Na catedral, encontramos 600 m² de pinturas, com murais de até 15 metros de altura com figuras de até 3 metros. São painéis de enormes proporções, representando cenas bíblicas que Sigaud tratou á sua maneira, impondo-lhes sua personalidade, sem prejudicar a finalidade precípua – decorar uma igreja.
Figuram nessas obras, imortalizados, o Velho Testamento, com as oliveiras substituídas por pinheiros, cafeeiros e cana de açúcar, registrando o poder econômico jacarezinhense da época, bem como figuras do povo da cidade: comerciantes, fazendeiros, coroinhas, o prefeito, sua esposa, filhos de Maria, pessoas humildes, bizarras, etc. enfim, figuram nas pinturas de Sigaud pessoas que de algum modo chamaram sua atenção.
Assim como no início da construção da catedral, a obra nos remete para o contexto da época. Os trabalhos de Sigaud contém também suas convicções políticas e os embates por que passava a sociedade.
Na Capela do Santíssimo encontramos três painéis: A ‘Fortaleza e a Temperança’ (cada um com 2.5m por 1,3m) e ‘O Sermão da Montanha’, com 2,5m por 4m, onde temos a figura de Marx, Lênin e do próprio pintor, representando assim mais uma contradição do pintor e seu irmão, o sagrado e o profano dentro de um templo.
Suas pinturas com características similares a Candido Portinari, demonstram sua luta pelo oprimido; suas figuras apresentam pés e mãos enormes e o impacto dramático representa o contraste existente entre a burguesia do proletariado.
O trabalho de Sigaud em Jacarezinho é o segundo mais importante do Brasil, depois do de Portinari na Pampulha. É uma arte religiosa de caráter bastante contemporâneo, já dentro de uma visão modernista que tem um comprometimento social e político que era próprio de Sigaud.
Se na época (1960) essas pinturas foram polemizadas, hoje são riquezas que devem ser preservadas e restauradas, pois apesar de já serem tombadas como patrimônio histórico (as pinturas de Sigaud) precisa ser restaurado.
Em 1960, um movimento popular, (liderado por políticos locais) pretendia destruir os painéis da Catedral, sob o pretexto que a obra profana de Sigaud estava trazendo maus agouros. Na verdade, o que realmente acontecera fora que, alguns políticos da cidade, contrários ao trabalho do então prefeito Cássio Pereira, temiam que com a divinização do prefeito (cuja figura na cúpula aparecia ao lado do Papa) as eleições daquele ano tomassem rumo a ele favoráveis.
Nesse esboço apresentado, podemos perceber que a história local e regional apresenta no seu todo, o contexto mundial refletidos no cotidiano e no pensamento da sociedade.
Pelas controvérsias do início da construção, até a finalização de todos os aspectos internos e externos da catedral, temos uma análise de todo o contexto por que passou a humanidade nesse período, o que por si só já justifica esse trabalho.
Mas temos também como ambição que com a divulgação e conhecimento desses estudos, possamos conseguir a sensibilização dos poderes competentes para a restauração dessa importante obra.

Texto retirado do Artigo da Professora Fumie Barbuio

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